"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador."

Clarice Lispector



Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

Descompasso - Parte II


Passou as mãos nos cabelos pela que deveria ser a milésima vez em questão de minutos. Apertou o botão amarelado, ouvindo a seguir um barulho levemente incômodo do outro lado da porta de madeira. Alguns segundos o separaram do som inconfundível de uma fechadura se abrindo.
- Tiago?!
- Oi, Clarice. Será que a gente podia conversar?
Era visível que ela ainda se recuperava da surpresa. Uma semana sem nenhum contato exceto as poucas conversas inevitáveis na faculdade, e então ele surgia assim?
- Como... Como você entrou?
- O porteiro me deixou subir.
- Ah, é lógico... Entra.
Adentrou o pequeno apartamento, fazendo uma análise rápida do aposento enquanto ela fechava a porta: ela tinha razão em acusá-lo, em tom de brincadeira, de ser o responsável pela bagunça que às vezes se instalava.
- E então? - Disse, a voz baixa mas audível o suficiente para fazê-lo voltar suas atenções para ela.
- Droga, Clarice, eu não consigo ficar sem você. - Tomou as mãos dela nas suas.
Ela permaneceu calada. Teve vontade de dizer que sentira tanto a ausência dele naquele ambiente que chegava a doer. Pensou em confessar o quão difícil era não se entregar ao desespero quando a noite chegava e ela ocupava, sozinha, a cama projetada para dois. Mas optou pelo silêncio.
- Eu fui um completo idiota aquele dia. Sinto muito por ter te acusado de não me amar, ou qualquer coisa estúpida desse gênero que eu tenha insinuado. Mas é verdade que não me arrependo de ter tocado nesse assunto, Clarice. Era algo que estava me incomodando. Muito.
- Eu sei. E eu quero que nós possamos conversar sobre tudo, Tiago. Eu achei, na verdade, que nós pudéssemos.
- Não sei o que me deu. Uma crise de insegurança... Sei lá. E eu me arrependo, completamente, de ter te traído. E mais ainda de não ter te contado. Eu te garanto que isso não vai se repetir, se você me aceitar de volta. - Ela entreabriu os lábios, mas ele prosseguiu com o discurso antes que ela pudesse verbalizar qualquer coisa. - Eu te amo, Clarice. Demais. E essa semana longe de você me fez perceber que eu te amo o suficiente para respeitar a sua vontade de não tornar o nosso relacionamento público.
Ela sorriu. Ele a enlaçou.
- Obrigada, Tiago. Nós vamos fazer esse relacionamento funcionar, você vai ver. E, à propósito, eu também te amo. Demais.